mercredi, avril 18, 2007
ma petite chou-fleur
minha pequena couve-flor, que vi sentada na carteira de um cursinho apenas de disciplinas exatas, que provávelmente nos preparia para o ingresso numa universidade pública, era acanhada quase nunca falava, sempre ouvia aquela morena louca que falava por ela e só se referia ao namoro, sempre. me atiçei para me aproximar, mas mantive minha atenção naquele professor confuso de física mecânica, que hora e meia nos pedia pra esquecer de tudo o que ele havia fincado naquele quadro verde [nunca fora negro, não aquele] com um resto de giz branco. mas não somos assim. não é assim que se esquece das vezes em que fincam dentro da gente marcas que não são possíveis desconsiderar. e foi assim. prestei apenas um único teste de vestibular e ingressei, em minha própria cidade, num curso que havia descoberto do dia pra noite e que eu achava o máximo pensar que eu poderia controlar a ventilação, iluminação e acústica de um determinado local. logo no trote dos bixos identifiquei aquela que eu sempre admirei do fundo da minha carteira no cursinho, aquela que sempre ouvia... sempre ouvia...ela sempre estava ouvindo e eu me perguntava 'será que ela não tem nada pra falar ?'.
numa primeira aproximação, avancei o sinal e logo veio a advertência! eu não sabia onde estava pisando e definitivamente descobri que ela não falava simplesmente por não ter o que falar, mas sim porque sabia falar, no momento adequado de abrir a boca. esmureci. mas não desisti e a comunicação e as aproximações foram convergindo, até que estávamos numa sala de desenho trocando papéis e papéis-tipo-arroz em que conversávamos durante uma aula de um professor picareta insuportável. namorara então um menino do grupo, e ela, apesar da 'distância' que diminuia, sempre a mim fora uma incógnita. a incógnita mais exata que já tive. insistimos um ao outro e então eis que decide parar com o curso, que para ela se configurava como uma tortura. mais um ano se passava entre encontros e desencontros, pois ela estudava para um futuro teste. desta vez não eram disciplinas apenas exatas e o curso, bem melhor que aquele em que eu sempre a via tomando sorvete no intervalo nesta cidade de temperaturas catastróficas.
e fomos subindo os degraus, até que fora embora pra capital e voltava vez ou outra, datas comemorativas, feriados... mas a comunicação não cessara. estávamos sempre reforçando esse laço, essa ponte. até que ela se firmou e então o que sinto hoje é uma não-necessidade de nos falarmos para termos a sensação de que a comunicação existiu. agora, por exemplo, sinto que ela recebera minhas sensações e eu também recebo as sensações de lá. algumas notícias ou outras, não importam. é como se tivéssemos atingido um nível de comunicação. amigos de silêncio, amigos de noites dormidas e de cigarros acesos queimando sozinhos seja de melancolia ou de alegria. de cervejas e fasts-foods. tudo pode ser fast-food menos o que temos um para o outro. e só. levaremo-nos sempre um ao outro. para todo canto.